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Tudo 

O conhecimento mais valioso é aquele que ninguém pode te ensinar, contudo ainda assim você aprende. É o seu próprio segredo. É a verdade. Ele pode ser uma bênção ou uma maldição.

Eu sou Azami, bibliotecária-chefe da maior e mais completa biblioteca de toda a terra. Eu tenho tudo o que sempre quis, contudo não estou contente. 

Como uma jovem menina, eu cresci no Província Kawabe na parte baixa das cachoeiras. Meu pai serviu o exército e estava longe de casa há muito do tempo. Minha mãe estudou o conhecimento soratami e escreveu trabalhos escolares sobre eles. Ela passava pouco tempo comigo e com meu irmão. 

Minha mãe era muito rígida. Ela tinha muitos pergaminhos e documentos, que ela nos proibia de tocá-los, muito menos permitia que lêssemos. Ela nos dizia que eram muito valiosos, muito sofisticados, ou muito cheios de magia para nós lermos. Claro que estes eram os textos que mais me interessavam, assim eu frequentemente os pegava fora da biblioteca privada de minha mãe. Eu me sentava perto do rio e lia. 

Um dia, quando o mundo encheu-se de névoa, eu furtei um pergaminho da sua coleção. Eu o levei para o rio. Eu teria que esperar um pequeno tempo para o sol queimar a névoa matutina e até a luz clarear suficientemente para eu decifrar o texto. Enquanto estava sentada, jogando galhos no rio e os assistindo flutuar na correnteza, um espírito do rio apareceu e ficou olhando para mim. Era uma estranha criatura escamosa com dúzias de barbatanas e quatro olhos bulbosos. Na ocasião, eu pensei que era um Grande Kami. Eu era apenas uma jovem garota. 

“O que você está você fazendo?” perguntou uma estranha e borbulhante voz. Me encarou sem piscar enquanto eu reunia coragem para responder. 

“Eu vim aqui para ler, oh Grande,” eu disse. 

“Por que você lê?” perguntou.

Desta vez eu falei sem hesitação. “Para ganhar conhecimento.” 

“E isto é o que a maioria quer?”

“Sim, é sim,” eu disse.

Piscou lentamente em sequência cada um de seus quatro olhos. 

“O que você deixaria por isto?” 

Meu estômago tremulou. Como nas lendas e contos, o Grande Kami deve estar me oferecendo um acordo. 

“Tudo,” eu sussurrei. 

“Então isto você terá,” o espírito disse e desapareceu sob o rio com um esguicho. 

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Meu coração encheu-se de alegria. Eu esperava ansiosamente o cumprimento do meu desejo. Dias passavam e nada de importante acontecia, porém eu não desesperei. Eu continuei furtando e devolvendo documentos da biblioteca de minha mãe. 

Após um ano do incidente com o espírito de rio, minha mãe notou minhas ausências na casa. Procurando por mim, ela entrou no rio e quase se afogou. Febrilmente ferida, ela ficou confinada à sua cama. Os melhores esforços do curandeiro local e do residente jushi não restabeleceram sua saúde. Eu também cuidava dela, molhando sua testa com um pano úmido e fazendo sua sopa, mas eu gastava mais horas na sua biblioteca do que ao lado da sua cama. Dentro de uma lua, ela morreu.

Filósofos dizem que morte é mudança. Com a morte da minha mãe, muita coisa mudou na minha vida. Meu pai me enviou à Escola de Minamo. Ele disse que queria que eu usasse meu potencial, mas eu sabia que ele não queria se aborrecer criando uma filha. Desse maneira esse foi o ano que eu perdi meu pai também. Ele enviou a biblioteca de minha mãe comigo, para ajudar nos meus estudos. 

Os pais que eu perdi foram um pequeno preço em relação às oportunidades que ganhei. Eu tentei lamentar, pela minha mãe, pelo meu pai, pelo preço cobrado pelo meu conhecimento, mas eu não pude. Eu sentia estas tragédias além de meu controle. O espírito do rio estava cumprindo sua barganha. Não era minha culpa, era a magia do Grande Kami que estava agindo para me trazer conhecimento. 

Eu enviei um barco de papel com incenso e flores na correnteza antes de me mudar para a escola.

* * *

Na escola, eu conheci Etsumi Urano. Nós éramos jovens, luminosas, e ambiciosas. Sob outras circunstâncias, nós poderíamos ter sido rivais, mas ao invés disso ficamos amigas íntimas.

Anos felizes passaram, e nós crescemos se tornando mulheres jovens e bonitas. Nós só se preocupávamos com nossos estudos e com uma à outra. 

Etsumi equilibrou seus estudos com treinamento no bo e em uma variedade de magias. 

Para mim, o conhecimento antigo era fascinante. Tanto conhecimento valioso havia sido ganho e então perdido novamente. Em um manuscrito envelhecido, eu encontrei uma referência a um espião de soratami em uma missão em território de nezumi. O espião tinha roubado os planos de batalha e o diário do General Sonzaki. Temendo ser capturado ele escondeu os tubos dos pergaminhos dentro de um santuário no Templo de Kitanosu. Ele escapou e retornou sem os documentos. Com o tempo outra missão se organizou, a grande batalha tornou-se longa e os manuscritos julgados desnecessários.

Talvez eles eram desnecessários na ocasião, mas para mim agora, uma estudante de história e conhecimento, uma estudante que deseja fazer que com seu nome seja lembrado, os documentos seriam inestimáveis. 

O Templo ainda existia. Estava localizado só a algumas ligas dentro do território nezumi. Eu convenci Etsumi de que nós poderíamos entrar, achar os manuscritos, e sair furtivamente. Com suas habilidades com o bo e nosso conhecimento de magia silenciosa e protetora entraríamos e sairíamos de lá com facilidade. 

Eu estava errada. Chegar lá e entrar foi difícil, mas controlável. Nós evitamos as fortuitas patrulhas de nezumi. Passar furtivamente por um humano ochimusha que roncava, bêbado, no próprio templo provou ser pouco desafio.

Nossa procura pelo manuscrito escondido naquele local secreto, dilapidado, saqueado levou bastante tempo. Nós os achamos ao mesmo tempo que o ochimusha começou a despertar. Ele nos viu, assim que nós saímos. Ele gritou por nós, alertando as duas asquerosas criaturas-rato que vigiavam o local. 

Um deles nos seguiu. O outro alertou a aldeia, gritando que estava sendo atacado. 

Nós mantivemos uma boa distância durante um bom tempo, mas o nezumi que nos caçava começava a se aproximar. O fardo pesado dos pergaminhos reduziu a nossa velocidade.

Etsumi e eu corremos cegamente pelo pântano.

“Areia movediça!” eu gritei atrasada enquanto Etsumi afundava até suas coxas no lodo. “Azami, segure minha mão,” ela disse, permanecendo tranquila. “Você pode me puxar seguramente. Se nós deixarmos os pergaminhos, nós conseguiremos nos distanciar do nezumi.” “Me dê os pergaminhos primeiro,” eu disse.

Não era minha culpa, eu tive que agir como o Grande Kami havia decretado. Arrumando o pacote embrulhado, eu a deixei no pântano, penetrando lentamente na areia movediça. O nezumi logo a acharia e a sua caçada provavelmente terminaria com ela. Embora os gritos dela me encontravam, mais alto ainda era a memória de meu próprio sussurro de garotinha. Acima de todas as coisas, eu ouvia isto: “Tudo.” 

* * *

Se antes eu era uma estudante ardente, depois da morte de Etsumi, eu me concentrei nos meus estudos com muito mais vigor. Eu publiquei os meus trabalhos, versões anotadas dos volumes. Eles me trouxeram grande status. 

Minha dedicação e habilidade me conduziram a um rápido avanço. Por ter passado muito do meu tempo na biblioteca, eu me tornei uma autoridade na coleção. A escola me colocou na tarefa de obter e catalogar textos novos. Todos meus empenhos floresceram.

Todas as pessoas bem-sucedidas têm inimigos. A diretora da biblioteca, Atsuko Shimazaki, me contrariava em cada oportunidade.

Eu tentei fazer as pazes com ela e a convidei para um piquenique no topo das quedas. Eu comi rapidamente, tão rapidamente como a manipulei com comida e bebida e conversei ligeiramente sobre tópicos de interesse em comum. Eu falei eloquentemente de querer aprender com ela e de tê-la como uma aliada em vez de uma inimiga. Ela comeu e bebeu vigorosamente, mas expressou uma repugnância em responder às minhas propostas de amizade. O maior azar era foi que a salada de cogumelos doces que eu servi de sobremesa incluía uma variedade venenosa. Na verdade, com meu conhecimento, eu deveria saber, mas um engano não era impossível. A pequena porção que eu comi me deixou ligeiramente doente mas consegui convencer os outros da honestidade do engano. A grande quantidade que Atsuko consumiu a levou a uma doença muito dolorosa, tão prolongada que acabou permanentemente com seu retorno aos antigos deveres. Infelizmente, e totalmente além de meu controle.

* * * 

Anos se passaram, e eu cresci mais respeitada e poderosa sem impedimentos. Agora, eu sou a bibliotecária-chefe da coleção mais prestigiosa de livros no mundo. 

Recentemente, um grupo que caçava o kami das Grandes Cachoeiras trouxe um espírito do rio. Era uma estranha criatura escamosa com dúzias de barbatanas e três olhos bulbosos, uma cicatriz cruzava uma órbita vazia e mostrava onde uma vez havia um quarto olho. Estava mais velho, e os anos não tinham sido amáveis, mas eu não falhei ao reconhecê-lo.

Depois de muito estudo, muito disto desagradável para a criatura, pela primeira vez, eu aprendi mais do que eu sempre quis saber. Não era nenhum Grande Kami com poder de cumprir desejos. Era um simples espírito do rio, sem magia alguma, além da habilidade de atrair peixes. Os eventos de minha vida não foram moldados por um kami manipulador, não, a responsabilidade pelas mortes de minha mãe, Etsumi, e Atsuko Shimazaki era minha e somente minha. 

O peso deste conhecimento ajustou-se em minha alma como um karma. Como eu poderia ter sido assim tão ingênua e tão crédula? A criatura não era um kami poderoso. Nunca tinha me feito qualquer promessa. Curioso sobre humanos, a criatura tinha me feito somente algumas perguntas e proferiu algumas palavras, me desejando boa sorte enquanto partia.

Hoje ainda, eu não lamento pelos mortos. Eu não me arrependo das minhas atitudes. Eu lamento os anos de auto-desilusão. Eu vivi uma mentira. O pior de tudo, a coisa que eu não posso reconciliar, a que me faz amarga, é que se não fosse assim eu não teria aprendido a verdade.